Historia Inmediata


Historia y Ecología


Caro Domingo,

Concordo com quase tudo que expõe. Creio que chegamos a um limite de há muito. Inclusive se naquilo a que chamamos as bases materiais da sociedade se inclui, fundamentalmente a natureza, e se das referidas bases materiais dependemos para fundar uma outra sociedade ético-humano que não cabe no neoliberalismo que ai está, talvez não consigamos mais recuperar o elo perdido.

Se você tem razão em assinalar que não foi apenas o capitalismo que destruiu a natureza, não se pode não afirmar que ele foi o principal responsável durante mais de 4 séculos (e no último século contando com a ajuda da excrescência que se denominou socialismo real, burocrático, de caserna, etc.). E isto por uma razão fundamental. Por mais que os homens integrantes dos outros tipos de formação social fossem predadores em relação ao mundo natural geral, seus modos de produção e de reprodução da vida material se baseavam sempre no predomínio do valor de uso. Mesmo as sociedades mais predadoras como as do Império Romano visavam a reprodução das existências sociais, muito embora nas suas formações sociais a repartição do produto social dominado pelo valor de uso se repartisse também de modo desigual, como na maioria dos casos de modelos sociais à partir do neolítico. O capitalismo tudo mudou, inclusive a relação entre o valor de uso e o valor de troca. O predomínio da última categoria foi levado ao paroxismo no século XX com o predomínioinexorável da produção de valores fictícios. Se para o século XIX Marx pôde falar de fetichismo da mercadoria, hoje já não mais com a produção de valores de uso, se transfere a propriedade de gigantescas massas de riquezas-valores acumulados nos séculos precedentes sem que se dispenda sequer um milionésimo de tempo social necessário à produção da referidas riquezas já cristalizadas em títulos de valores, etc. Poderemos, sem erro, falar, portanto, de um fetichismo do fetichismo!

Ora. Foi precisamente Marx quem nos possibilitou compreender tudo isso mesmo se não conseguiu observar o desenrolar de todas as conseqüências, em seun tempo, é claro. É claro que saudou o progresso das forças produtivas e o avanço tecnológico, do mesmo modo que eu e você saudamos a descoberta da energia atômica e sua utilização para fins pacíficos. É claro que se vivêssemos numa sociedade onde o valor de troca inexistisse ou se achasse completamente submetido ao valor de uso e de modo consciente, teríamos como optar, pela exploração ou não da energia atômica, mesmo para fins pacíficos, se ela implicasse num maior ou menor desgaste (e sua possibilidade de recuperação ou não) da natureza.

A verdade é que hoje mesmo a TSUNAMIS que imediatamente teve origem no movimento de placa geológica pode escapar da lei do valor. As nações asiáticas não precisariam dominar a tecnologia de controle dos movimentos das referidas placas vez que a Austrália, o Japão já detém ela.Marx não fez apenas apologia do progresso. Chamou atenção, denunciou e demonstrou científica que o valor era fruto da mais-valia (ou do menos-valor pago em salário ou como alimentos pelo apropriador do mais-valor) e que o gigantesco desenvolvimento das forças produtivas capitalistas dos 4 séculos precedentes havia sido feito à custa da barbárie colonial e das exploração das classes já exploradas nos modos de produção precedentes, inclusive na Europa. Todavia não cabia, como decimos en nuestro país, llorar el leche jugado a fuera!

Em 1876, Engels escreveu que, "não devemos ficar demasiado lisongeados de nossas vitórias humanas sobre a natureza. Ela se vinga de nós por cada uma das derrotas que lhe infligimos (...). Tudo nos faz recordar, a cada momento, que o homem não domina a natureza, pelo menos do modo como um conquistador domina um povo estrangeiro, quer dizer, como alguém que poderá permanecer alheio à natureza, porque somos parte dela, com nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, nos situamos em seu interior e todo o nosso domínio sobre a natureza e a vantagem que nisto levamos sobre as demais criaturas consiste na possibilidade de conhecer sua leis e saber
aplica-las".

Pois é: como achar que podemos continuar explorando petróleo (os Estados Unidos já alcançaram o nível máximo de sua exploração lá) e achar que ele nunca se esgotará? Como podemos continuar a devastação da Amazônia achando que ela nunca sofrerá os destino da Mata Atlântica? Como podemos continuar jogando gás carbônico na atmosfera sem que isso traga conseqüências para a natureza em geral e para o homem em geral? É como ver a proliferação de meninos de rua no mundo todo, de favelas, de violência, de criminalidade, como se nada tivessem com a lei do valor!

O que me parece mais impressionante de tudo isto é (para falar de um homem genérico marcado pelo pecado original, como se fosse possível estudá-lo sem sua natureza de classe social) que continuamos como se tivéssemos longos séculos à nossa frente. Na verdade, não temos sequer um século mais e, contando com todos os esforços de um homem genérico (como se fosse possível pensa-lo hoje fora da lei do valor) e tudo que ele já acumulou de conhecimento e tecnologia, não sabemos se poderemos sequer usar esse arsenal para tentar remediar todo o estrago. Já pensaram apenas no volume de lixo que se produz a cada dia no planeta? Se fôssemos saudasistas pleitearíamos voltar para o mundo feudal. Lá, seríamos, talvez, amigo do Rei, e o lixo seria mais controlado, porque submetido à lei do valor de uso.Na verdade, a situação é mais feia do que parece à primeira vista. Mas nós todos podemos continuar desejando à todos, bom ano novo!Oxalá tiremos todas as conseqüências disso tudo. Não me parece ser arrogante fazê-lo!

Mando um grande abraço fraterno, enquanto espero sua contestação.

Jorge Nóvoa
Universidade Federal da Bahia
www.oolhodahistoria.ufba.br

 

 

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