|
SESSÃO DE APRESENTAÇÃO DA “HISTÓRIA A
DEBATE” NA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO
(13-1-2006)
Intervenientes:
§
Professor Doutor Carlos Barros
– fundador e coordenador
do projecto “Historia a Debate” e Professor
Catedrático de História Medieval da Universidade de
Santiago de Compostela.
§
Professor Doutor Armando Luís de Carvalho Homem -
Professor
Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do
Porto.
§
Professor Doutor Luís Miguel Duarte
– Professor
Associado/Agregado da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto.
§
Professora Doutora Isabel Morgado
–
O Professor Doutor
Armando Luís de Carvalho Homem
deu início à sessão apresentando o Professor Carlos
Barros.
§
Em seguida fez referência
detalhada aos três colóquios de “Historia a Debate” já
realizados, 1993, 1999 e 2004, anunciando a publicação
das actas do último para breve, à semelhança do ocorrido
com os anteriores. Salientou o carácter profundamente
englobante das temáticas do colóquio e, referindo alguns
dos artigos publicados nas actas do II Colóquio, 1999,
evidenciou esta multiplicidade de contributos.
§
Procedeu à apresentação do
“Manifiesto de Historia a Debate”, distribuído
por todos os participantes, e salientou a presença de
muitos historiadores da América Latina na lista dos seus
subscritores da qual fazem parte, também, alguns
docentes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto
(FLUP).
§
Foi salientada a
importância do site da Historia a Debate e
do seu fórum internacional reflectida, de forma
evidente, na enorme quantidade de informação que dos
vários cantos do mundo chega às caixas de correio dos
subscritores deste projecto.
§
Acerca da dificuldade de
projecção dos historiadores portugueses na sociedade e
nos meios de comunicação, o Professor Doutor Armando L.
de Carvalho Homem criticou a ausência de interesse do
poder político pela acção e obra destes investigadores
reprovando algumas intervenções menos cuidadas,
exemplificando com a designação da comemoração dos
“500 anos” dos descobrimentos portugueses
indevidamente assim referida.
§
Considerou particularmente
negativa a divulgação televisiva de uma História
desactualizada e, em alguns casos meros exemplos de
criatividade delirante dos “comunicadores” da História.
Referiu alguns exemplos.
§
Foi historiada, pelo mesmo
professor, a evolução dos doutorados em História nos
últimos anos na FLUP evidenciando, assim, a vitalidade
deste departamento.
§
Salientou como menos
apropriada a existência conjunta dos saberes que se
juntam na unidade orgânica “FLUP”.
§
Reflectindo sobre a
História nas universidades portuguesas considerou que os
contactos com outras instituições estrangeiras são, por
vezes, mais relevantes que a ligação entre historiadores
dos diversos cursos de História existentes no nosso
país.
§
Concluiu com a análise da
diminuição do número de candidaturas de estudantes à
licenciatura em História criticando o actual discurso de
alguns reitores que, repetindo as intenções manifestadas
por vários políticos dos anos 90, tendem a tentar fechar
cursos menos frequentados. Exemplificando procurou
provar que, em alguns casos, a solução é absurda.
A Professora
Doutora Isabel Morgado iniciou a sua intervenção
agradecendo o convite do Professor Doutor Carvalho Homem
para esta mesa redonda. Em seguida elogiou o Professor
Doutor Carlos Barros e a sua acção na “Historia a
Debate”.
§
Apresentou o “Manifiesto
de Historia a Debate” e relevou a necessidade do
historiador reivindicar o papel ético da História na
sociedade.
§
Exemplificando com o seu
percurso de estudante de licenciatura, mestrado e
doutoramento elogiou o acompanhamento científico que
encontrou na FLUP relevando a semelhança desta
instituição, nomeadamente ao nível do papel desempenhado
pelos docentes, realização de debates, etc., com o
“Instituto Universitário Europeu de Florença” que também
frequentou e onde vários docentes das universidades
portuguesas fizeram os seus doutoramentos.
O Professor Doutor
Luís Miguel Duarte referiu os diversos
interesses científicos da “Historia a Debate”
salientando a relevância desta iniciativa e afirmou que
“esta mesa redonda está com 12 anos de atraso”.
§
Colocou algumas questões
sobre as quais se foi pronunciando:
- podemos
fazer História sem debater Historiografia?
-
como combater a
especialização que leva a uma atomização que considera
negativa?
-
como equilibrar a
investigação com a agenda do nosso tempo: conflitos
entre civilização ocidental e civilização muçulmana;
desafios em torno da questão de géneros, etc.?
-
como reagir à tendência de
fazer da História o tribunal do passado?
-
Como podemos fazer uma
História de valores?
§
Reflectindo sobre a
constante necessidade de justificar o nosso trabalho de
historiadores, o que considerou ser desgastante, afirmou
que “A História é uma maneira de ver o mundo que
qualifica” e sublinhou o facto de toda a gente falar
dela sem a parcimónia aconselhada pela ignorância,
perversidade que menospreza os verdadeiros
profissionais.
§
Contestou a hipótese de
rever o “Manifiesto de Historia a Debate” que está
datado e como tal deve permanecer como reflexo do tempo
que lhe deu origem.
§
Afirmou que faltam
grandes livros de História e que alguns dos mais
estimulantes são antigos. Interrogando-se sobre a
eventual falta de grandes historiadores defendeu a
necessidade de debates estimulantes.
O Professor Doutor
Carlos Barros afirmou que esta era a 69ª
apresentação da História a Debate o que reflecte
o interesse que desperta. Manifestou tristeza pela
impossibilidade técnica de gravação deste encontro, o
que também aconteceu na apresentação realizada na
Universidade de Coimbra, e ressaltou a importância do
acompanhamento destes actos por aqueles que frequentam o
site. Lembrando que em Fevereiro ou Março a “Historia
a Debate” vai ser apresentada na Universidade de
Lisboa, fez votos para que se continue a falar do
projecto na FLUP.
§
Analisando as pessoas cujo
endereço termina em pt que recebem informação da
“Historia a Debate” e escrevem mensagens
verificou o seu enorme crescimento, nomeadamente no
último ano.
§
Sublinhou que a “Historia
a Debate” é um processo inacabado e com muitas
surpresas e, como se pretende estar “arriba del
cavallo”, é necessário acompanhar os acontecimentos
do mundo, que são muito apelativos para os
historiadores, sendo importante fazê-lo para que os
vindouros tenham uma vida melhor.
§
Historiando o que foi sendo
feito no âmbito da “Historia a Debate”, afirmou
que a Historiografia que nos formou estava a ser
repensada aquando da realização do I Congresso
que teve por objectivo fazer um Balanço da situação.
Neste encontro se comprovou o esgotamento de algumas
escolas: Annales, Nouvelle Histoire, etc.. “A
História que vem” foi o artigo que publicou sobre
este tema, em que afirma a necessidade de procurar
alternativas. Curiosamente comprovou, recentemente, a
existência de muitos livros dos historiadores clássicos
nas livrarias portuguesas e espanholas.
§
A situação da
historiografia hoje e a sua conexão com o mundo que nos
rodeia foi a problemática que em 1999/2001 fez lançar um
inquérito: “O Estado Actual da História “. Nas cerca de
600 participações ficaram patentes o grande dinamismo e
juventude dos intervenientes.
§
No II Congresso
constatou-se que muitos dos participantes eram de países
latinos e copiavam os historiadores ingleses e
franceses. O Professor Carlos Barros afirmou que é
preciso analisar a historiografia internacional e pensar
pela própria cabeça.
Neste II Congresso
constatou-se a existência de um eixo novo ligando os
historiadores do continente europeu e os da América
Latina com capacidade de intervirem no mundo.
§
III Encontro
: foi necessário deixar de fora várias contribuições;
continuam a aparecer muitas comunicações muito
especializadas.
As reuniões mais
importantes foram gravadas e existem hoje 48 vídeos na
página web da “Historia a Debate” . Vão ser
publicados três volumes com as participações neste
congresso, nos idiomas de comunicação. Alguns
portugueses marcaram presença neste encontro mas em
número muito reduzido. Foram referenciados historiadores
presentes neste como nos anteriores congressos que não
estão a trabalhar nos cursos de História mas em Direito,
Antropologia, etc. . “Há que definir a disciplina de
novo” concluiu.
§
O Professor sublinhou a
importância das pequenas mensagens, pela sua
singularidade e espontaneidade, normalmente ausentes dos
trabalhos académicos. A participação no site da
“Historia a Debate” é feita sem preocupações de
curriculum havendo presenças relevantes e constantes. A
média etária dos aproximadamente 7.000 frequentadores é
de 35/45 anos, espalhados pelos cinco continentes,
muitos deles pertencentes, como alunos, investigadores
ou docentes, a uma das cerca de 350 universidades
representadas. A língua dominante é o castelhano mas são
feitas traduções para inglês e francês. Concluiu
afirmando que a nova sociabilidade académica está
patente na “Historia a Debate” com o recurso a
novos meios de comunicação.
§
Destacou o retorno aos
tipos de História tradicional que foram muito criticados
por alguns historiadores e referiu,
circunstanciadamente, a biografia que não pode ser paga
pelo erário público quando é superficial. Alertou para o
facto de que a História dos Protagonistas pode
ser deturpadora dando o exclusivo da História a um
número muito reduzido de personagens, enganando ao
encobrir milhares de participantes activos. Exemplificou
com a luta pela democratização de Espanha. Concluiu
sublinhando a necessidade de que se faça História séria
para dar credibilidade à Ciência Histórica.
§
Salientou algumas das
actuais preocupações dos historiadores e referiu que
muitos se juntam na “Historia a Debate” para
falarem de temas muito diversos sendo patente a
preocupação pela teoria. Este fórum conseguiu uma
democratização dos debates, “estamos buscando
solução e há solução para uma nova História”,
concluiu. “O historiador do futuro ou reflectirá ou
não o será”, escreveu Carlos Barros há alguns anos,
hoje voltaria a escrevê-lo afirmou.
§
Destacando a importância
das grandes escolas historiográficas sustentou que os
grandes historiadores que ainda lembramos a elas
pertenceram, sendo certo que sem essa integração
colectiva não teriam o impacto que alcançaram. As suas
obras têm grande importância porque temática e
metodologicamente foram novidades, estando integradas em
escolas que desenvolviam essas novidades.
§
Ainda acerca do III
Congresso “Historia a Debate” referiu a
igualdade de tratamento conferido a todos os
investigadores independentemente do seu estatuto
académico. Salientou que este encontro teve mais mesas
redondas que conferências o que agilizou a participação.
§
Ressaltou que “o debate
não é um uso académico” até pela existente relação
mestre/discípulo, mas, sublinhou, “ a transmissão
vertical é fundamental mas precisa de contrapesos
democráticos”.
§
Acerca do grande impacto
conseguido pela “a Historia a Debate”
ssegurou que é a primeira vez que existe tanta
visibilidade da historiografia “periférica”: espanhola,
portuguesa, etc.. Corroborando este êxito está a
publicação nos Estados Unidos de uma parte das
comunicações ao II Congresso.
§
Referindo a tendência do
poder central para promover a ligação de investigadores
espanhóis com equipas de outros países, sublinhou a
necessidade de serem analisadas as dificuldades geradas
por essa internacionalização que “Historia a Debate”
ja alcançou.
§
Finalmente alertou para a
necessidade de inverter a direcção das relações
empresa/universidade pois que, a seu ver, não deve ser
aquela a modelar os cursos universitários, devendo antes
receber e adoptar as novidades que lhes são facultadas
pelas instituições de ensino superior.
Seguiu-se um animado Debate
que apenas o adiantado da hora impediu de ser mais
longo.
Prof.
Maria Antonieta da Conceição Cruz
Història Contemporânea - FLUP
|