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(12/04/00)
HaD. Colonización y perdón
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(12//04/00)
Inicialmente, peço licença aos amigos de HaD, para escrever em português.
Imagino que para os falantes do espanhol a compreensão não seja difícil, dada
a enorme semelhança entre os nossos idiomas. Para nós, brasileiros, o espanhol
é uma segunda língua, muito familiar e muito agradável para se ouvir e ler.
Escrever já é um pouco mais complicado, por isso, não me atrevo.
A questão que tem sido mencionada sobre o pedido de perdão dos países ibéricos
à América me parece muito diversa do "perdão" do Vaticano às vítimas
da inquisição. As atrocidades cometidas pelos inquisidores da Igreja contra os
"herejes" e as "bruxas" se deram em nome da fé cristã, por
iniciativa da Igreja, a qual continua existindo e continua sendo a expressão máxima
da religião católica. As pessoas são outras, certamente, mas a instituição
continua. Assim, não haveria o menor sentido em que os católicos hoje pedissem
perdão pelos crimes de seus antepassados. Mas faz sentido que a Igreja,
enquanto instituição, reconheça as injustiças e barbaridades que foram
cometidas em seu nome.
A questão do perdão dos países ibéricos aos povos pré-colombianos da América
me parece muito diferente. Não há, neste caso, uma instituição que tenha se
reproduzido no tempo e que possa se assumir como responsável pela violência do
passado. Penso que a redenção dos povos indígenas só pode se dar com a
inversão da perspectiva da qual se conta a história. Dou um exemplo: a história
oficial afirma brasileira: o Brasil foi "descoberto" pelos
portugueses. Uma história contada a partir da perspectiva do dominado, portanto
do indígena, inverterá o movimento: os portugueses "chegaram". Essa
pequena diferença muda toda aseqüência. Se dizemos "descobrimento",
continuamos narrando as ações dos "descobridores": os primeiros
contatos com o "gentio" (muito amigável, de início), a disputa com
os franceses (piratas, inimigos) pela posse do território, a organização
administrativa colonial, a ocupação da terra para a cultura de cana-de-açúcar
(e já então os índios não eram tão amigos, pois atacavam as pacíficas
vilas coloniais, e por isso tinham que ser combatidos), a adoção do trabalho
escravo negro, e assim por diante. Nessa história, os índios só aparecem como
cenário, como se vê num quadro famoso, estampado nos livros escolares
brasileiros, que retrata a primeira missa rezada no Brasil, assistida pelos índios
como se estivessem, embevecidos, diante da visão do paraíso. Ao contrário, se
começamos com "os portugueses chegaram", segue-se a invasão (não
ocupação, porque a terra já estava ocupada), a guerra, a escravização dos
índios, a violência simbólica da cristianização pelos jesuítas etc. Melhor
ainda, se conseguirmos mostrar os dois lados da mesma história.
Não se trata de dividir a história entre os bons e os maus. Trata-se, sim, de
recuperar certos temas que a historiografia oficial, escrita da perspectiva
européia, não considerou. Não há relato descomprometido. Mesmo com toda
seriedade que envolve o trabalho científico, sabemos que não há neutralidade
ideológica e que, portanto, ninguém é o detentor da verdade. Resgatar a
dignidade dos povos colonizados só pode ser uma tarefa de nós mesmos e não
responsabilidade dos ibéricos. Com os pés fincados na América, podemos
recontar essa história, trazendo para ela os sujeitos que ficaram na sombra por
quase 500 anos. Além do que, a violência, a exploração, a escravidão, a
desigualdade persistiram depois da emancipação política, em todos os países
da América Latina. A classe dominante "crioula" não perde para os
colonizadores em atrocidades cometidas.
Por uma interessante coincidência, esse novo debate - sobre a colonização da
América Latina começa no mês em que se comemora no Brasil, os 500 anos do
"descobrimento". A mídia faz a festa. Nada melhor do que retomar as
velhas fórmulas, os discursos fundadores da nacionalidade, (como a carta de
Pero Vaz de Caminha anunciando ao rei de Portugal o "achamento" da
nova terra), nada melhor do que essa grande parafernália mediática para
proclamar a grandeza da pátria, o progresso alcançado, o futuro promissor,
camuflando, dessa forma, os gravíssimos problemas que enfrentamos hoje. A violação
das terras indígenas é apenas um, de um conjunto que seria impossível
enumerar aqui, em poucas linhas (que já não são tão poucas, aliás). É também
esse tipo de manipulação da história que temos que denunciar. Quanto ao perdão
dos países ibéricos, mesmo que fosse defensável, o que não creio,de que nos
valeria ele,
agora?
Sonia Irene do Carmo
UNESP- Brasil
soniairene@sunrise.com.br
Historia a Debate
E-mailhad@cesga.es
Website<http//www.h-debate.com>
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